Alzheimer nos coloca no corredor da morte. E nesta espera dolorosa e aterrorizante, percebemos um cenário que até então estava escondido aos nossos olhos apressados e distraídos.
Vemos cores, sombras, figuras, monstros escondidos nas dobras das memórias, medos esquecidos e uma impotência assustadora.
Descobrimos que sabemos tão pouco da vida… Passamos nossos dias sem correr atrás de nada, para gastar todos os nossos minutos e não precisar ouvir os arrependimentos ou os desejos do nosso coração.
E quando o Alzheimer entra no nosso mundo, descobrimos, perplexos, que estamos condenados a viver e tentamos desesperadamente agarrar-nos à vida daqueles que amamos e mal temos tempo para lamber as nossas feridas.
Vivemos como se estivéssemos presos em um “corredor da morte”, esperando pelo carrasco que finalmente anunciará o último momento.
Quem de nós será executado primeiro, o paciente ou o cuidador?
E cada um de alguma forma estranha anseia pelo golpe que os tire deste inferno.
Então, percebemos que mesmo antes da chegada do Alzheimer, não tínhamos a lucidez necessária para construir a felicidade. Olhamos para trás e descobrimos que criamos uma rotina baseada em regras e modelos inventados por pessoas que nunca nos olharam nos olhos nem pararam para ouvir um pouco da nossa história ou dos nossos medos. Inventamos histórias para não enlouquecer de tédio.
Inventamos pequenos sonhos, quase sem poesia, para dar sentido a esse longo momento entre a chegada e a execução.
Distraímos nossos corações decorando a cela e chamando-a para casa para não desesperar com a espera agonizante.
Nós chamamos o nosso carrasco Alzheimer e o juiz Deus.
Aceitamos nossa condenação porque não nos atrevemos a questionar o “destino”, ansiamos por uma prorrogação da pena, mas não nos atrevemos a sonhar com uma “absolvição”, uma cura ou, talvez, algum alívio para nossa dor.
Somos seres conformistas, educados demais para gritar por ajuda ou felicidade, na verdade, nossa cortesia e insegurança são talvez os maiores aliados daqueles que nos abandonam.
Temos vergonha de chutar as barras, tentar arrancar as algemas à força, gritar mais alto que o carcereiro, rejeitar a comida que odiamos… E sucumbimos ao cansaço.
Somos seres dóceis que nos adaptamos muito facilmente à dor, ao castigo, à espera interminável, à infelicidade gentil e silenciosa (se ela é barulhenta e nos denuncia, encontramos uma maneira de silenciar seus gritos), à humilhação, às limitações impostas e às mentiras inventadas por nós mesmos, para disfarçar tudo isso.
Nós não achamos que somos feitos para jardins, preferimos quartos seguros com paredes grossas e grades nas janelas. Não ousamos esperar por um mundo sem cercas, porque nosso objetivo é uma corrente maior e um colar mais solto. Não nos permitimos poesia, optamos por respostas “coerentes” e enquadradas na lógica dos pequenos arquitetos deste universo.
Sentimos muito pouco e aprendemos desde pequenos a não expressar nossos sentimentos, para que o mundo não perceba nossa humanidade.
Nós fingimos, o tempo todo, que tudo será para sempre e que, no último momento, milagrosamente, venceremos a morte, e vitoriosos… Descansaremos!
A morte vence o cansaço.
Ninguém sai da mesma maneira. Depois que atravessamos este corredor, precisamos de novas regras e valores, porque tudo o que era antes não se encaixa mais no que nos tornamos. A vida deu a cara, agora somos seres em busca de um milagre, de vida em abundância, mesmo que não saibamos exatamente o que isso significa.
Míriam Morata – Extraído de Alzheimer Recolhendo os Pedaços


