NA CULTURA DO CUIDADO NÓS SOMOS A PONTE
Houve um tempo em que caminhávamos juntos, cada um construindo sua história, contando os sonhos e soprando as feridas do outro.

Mas a roda da vida nunca aquieta,… de repente abriu as comportas do “destino” e fomos arrastados pelo “rio da existência”, um rio turbulento, cheio de redemoinhos, mudanças no leito, correntes com direções contrárias… dois humanos experimentando a assustadora impotência diante da roda da vida, que insiste em girar e expor nosso desamparo, fragilidade e medo.

Fomos lançados para margens opostas, de um lado ele paralisado e pedindo socorro, pois ela é a sua única chance de sair dessa margem “a salvo”, mas ele não percebe que ela não sabe como atravessar esse rio e também pede socorro.

Ele olha para ela e vê seu medo, culpa, revolta, frustração e insegurança; ela olha para ele e vê seu medo, culpa, revolta, frustração e constrangimento – são dois humanos pedindo socorro ou talvez, um colo que os acolha.

Alguns chamam de CUIDADORA e PACIENTE, eu prefiro chamar de dois humanos assustados tentando construir uma ponte, e caminhar em direção ao outro, para depois seguirem juntos não sei para onde e nem por quê.

O rio é assustador e cada vórtice desse fluxo caótico tem um nome – demência, velhice, doenças crônicas ou incapacitantes, solidão, depressão, pânico, deficiência física severa, crianças com necessidades especiais… e em cada vórtice, alguém amado (ou sozinho e sem nenhum amor) é arrastado pela correnteza, enquanto um outro alguém apavorado tenta aprender a nadar em tempo recorde, para trazer esse humano para a margem segura.

A correnteza arrasta aqueles que não conseguem nadar, são muitos à espera de alguém, que os ajude a atravessar para chegar à margem segura… são poucas pulando na água para salvar esses humanos da correnteza. A conta não fecha, e o rio está cada vez mais furioso engolindo todos que estão à margem – os que não conseguem nadar e os que tentam salvar – alguns chamam de CUIDADORAS e PACIENTES, eu AINDA prefiro chamar de HUMANOS.

Já não existe margem segura, nem pontes e todos estão assustados, frágeis demais para lutar contra a correnteza.

Todos os dias, nesse rio alguém “misteriosamente” se afoga… e um outro alguém – sempre o mesmo – estende a mão e tenta salvar essa pessoa desesperada e cansada de lutar pela vida.

Alguns chamam aquele que se afogava de PACIENTE, e aquele que estendia a mão, de CUIDADORA. Eu continuo preferindo chamar os dois de HUMANOS.

Até então ninguém tinha percebido que ambos estavam cansados, assustados, revoltados, silenciados e se afogando mesmo fora da água, nenhum deles sabia construir pontes e já não tinham forças sequer para respirar na margem, enquanto imaginavam saltar e penetrar na fúria da correnteza, para acabar com todo esse cansaço de existir.

Alguns chamavam esse gesto de estender a mão, para segurar a mão daquele que teimava em submergir e trazê-lo para a beirada do rio de Assistencialismo, eu chamo de Compaixão.

E de repente, aquela que continuava com as mãos estendidas, começou a olhar ao redor e percebeu que estava só!

No silêncio da solidão ela ouviu o chamado sedutor da desistência, nesse momento compreendeu que não tinha mais forças para nadar, ou estender a mão para quem quer que fosse e não havia nenhuma mão estendida em sua direção, ou um colo que a acolhesse.

Alguns chamam esse ser cansado, frustrado e impotente de CUIDADORA, eu prefiro chamá-la de HUMANO.

Quando todo cenário, as forças e o script desaparecem, o silêncio do palco vazio revela o que ela não tinha percebido, pois o coração só percebe detalhes quando está quentinho e em paz… Mas parece que o Universo (ou Deus, ou seja lá o nome que queiram dar, a quem faz os pequenos e grandes milagres nesse jogo de existir) sempre dá um jeito de apontar um caminho:

É Preciso Construir uma Ponte!

Ela sai em busca de materiais para construir essa ponte, mas que materiais?

Mais do que pedras, madeira, concreto, ferro… a ponte se constrói com Esperança, Visibilidade, Engenheiros, Pedreiros, Arquitetos, Poetas, Idealistas… alguns chamam de profissionais, eu prefiro chamar de HUMANOS.

E ela vestiu a roupa de correr atrás dos sonhos e foi em busca de ajuda para construir essa ponte sagrada.

Alguns chamaram esse gesto de Advocacy ou Ativismo. Eu chamo de Solidariedade. Até que um dia, alguém viu nesse trágico “mistério” uma oportunidade de ganhar algum dinheiro, comprou um barco e começou a salvar os afogados por um preço “quase justo”, claro que nem todos podiam pagar… uma pena, mas a Vida nunca foi justa. Alguns o chamaram de Empreendedor, eu chamo de Abutre.

E a Vida não cansa de desafiar e criar Jogos perigosos para os humanos.

Então uma tarde um empresário, que passava pelo local percebeu que o barqueiro já não dava conta de atender à demanda, instalou uma fábrica de barcos e boias, e contratou pessoas para “ajudar” o barqueiro. Alguns chamam isso de “Agarrar uma oportunidade”, eu chamo “Aperte o play começaram os jogos mortais”.

O local ficou famoso pelas mortes, pois os barqueiros já não davam conta, muito menos aqueles que sempre estiveram na margem com a mão estendida. Então chegaram os religiosos para orar pelas almas e pelas famílias, pois aqueles que não podiam pagar o barqueiro precisavam do alento da Fé. Alguns chamam isso de “O poder da fé”, eu chamo de “Distribuir muletas para quem consegue andar”.

A indústria cresceu, o serviço de transporte cresceu, a Igreja cresceu e os afogados se acumulavam…

Até que um dia, aquele alguém que continuava na margem, com a mão estendida resolveu convocar aqueles engenheiros, pedreiros, arquitetos, poetas, idealistas, cozinheiros, professores, médicos, advogados, saltimbancos, trovadores, mambembes… alguns chamam de profissionais, eu prefiro chamar de HUMANOS, para fazer uma imensa caravana e “viajar” para todas as cidades, mostrando a realidade da CUIDADORA e PACIENTE (ops. dos HUMANOS, que estão à margem do sistema e à mercê da roda da vida)… e todos o chamaram de Louco!

Isso assustou e irritou aqueles que viviam do comércio e serviços e já começavam a sonhar em expandir, quem sabe, entrando para o ramo próspero da política ou funerária. A solução foi contratar uma poderosa empresa de marketing, chamar artistas, jornalistas, Youtubers, Influencers, Blogueiros e dirigir todos os holofotes para bem longe das ruínas da ponte. Foi um Sucesso!!!!

Mas a Compaixão tem mais força que a bomba atômica, e sabe fazer mais com menos barulho, e aquela louca que alguns chamam de CUIDADORA (e eu insisto em chamar de HUMANO) continuava ouvindo o pedido de socorro, e tentando alcançar a mão daquele que alguns chamam de PACIENTE (e eu insisto em chamar de HUMANO), gritou bem alto…

“Vamos construir a ponte!!!!!” – e alguns humanos loucos vieram e começaram a obra, outros foram se aproximando e aprendendo juntos, tudo sobre a arte de construir pontes. Alguns chamam isso de Advocacy Político, eu chamo de Empoderamento.

Então os “empresários” aumentaram o preço do material de construção de ponte, e eles aprenderam que pontes podem ser construídas com pedras, blocos, pedaços de árvores e tábuas, corda, sucata de ferro, entulho… coragem, revolta, determinação e compaixão. Alguns chamam isso de “Inteligência”, eu chamo de “Desespero Criativo”.

Como nada segurava aqueles humanos loucos, eles conversaram com um “político parceiro” e foi Decretado – “Fica proibido construir ponte, sem registro profissional regulamentado na carteira de trabalho e 5 anos de experiência comprovada.”

Então o eco do chamado desesperado, por loucos construtores de pontes foi ouvido por todos os Loucos de todos os lugares, todos os enlutados e desesperados, todos os invisíveis que sempre estiveram à margem e à mercê… e continuaram construindo a ponte. Alguns chamam isso de Desobediência, eu chamo de Compaixão Anárquica e Justiça Social.

Quem dera um dia, todos os humanos deste planeta descubram que nosso sacro ofício, sempre foi construir pontes.

Isso vale para todos que estão se afogando, ou lutando para sobreviver a um temporal, seja no rio ou no canto do sofá, onde chora sozinho.

Construir pontes e ensinar como fazer isso, alguns chamam de Política, eu chamo de Direitos Humanos.

E finalmente aqueles que estavam em margens opostas do rio, conseguiram caminhar em direção ao outro, agora seguem juntos não sei para onde e nem por quê, mas isso só eles poderão responder, ou não.

Quanto aos loucos construtores de pontes, eles também aprenderam que se todos se abraçarem, qualquer rio será transposto porque nós somos a ponte.

E afinal, o maior desafio do Jogo da Vida nunca foi a sobrevivência, mas a Convivência.

Míriam Morata – construtora de pontes

 

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